Você já ouviu falar da síndrome Burnout? Sabe como ela afeta a vida dos professores de uma forma perigosa?

E você, professor(a), será que já pode estar desenvolvendo esse estresse crônico e nem está se dando conta disso? Consegue reconhecer os sintomas e saber as consequências que isso pode trazer para sua vida?

A triste realidade dos professores

A maioria dos professores já viveu na pele o estresse e suas consequências na saúde física, emocional e mental ou conhece alguém da área que já passou por isso. Por acaso já aconteceu com você, professor, de sentir um esgotamento tão profundo que, quanto mais tentava manter o controle das situações, mais ele lhe escapava das mãos?

Será que o adoecimento docente pode ser o abismo da figura do professor como referência de transmissão de conhecimento e da formação de cidadãos pensantes e atuantes no mundo?

Sindrome burnout em professor

O estresse liberado de nossas lutas internas cotidianas tem sido referido como o “assassino silencioso” e desencadeador de vários tipos de doenças nas pessoas. É assim que a Organização Mundial da Saúde (OMS) reconhece o estresse: um mal que atinge mais de 90% da população do mundo.

O estresse ganhou a denominação de “síndrome geral de adaptação”, um conjunto de sintomas decorrentes de um estado de sofrimento do organismo, pelo endocrinologista canadense Hans Selye. É quando tentamos dar conta, a qualquer custo, de uma avalanche de situações com os recursos que temos no momento, embora nem sempre tenhamos esses recursos necessários para solucionar o que a realidade ocupacional impõe.

Já aconteceu com você, professor, de fazer mais do que podia suportar, insistindo em querer resolver tudo de uma vez para não se sentir cobrado pelos outros e por si mesmo? Nesse momento é acionado o famoso carrasco interno, que age com severidade e cobrança, simplesmente reduzindo a capacidade de cuidar de si e dos outros.

As causas da Síndrome Burnout

As causas apontadas por inúmeras pesquisas geradoras de estresse nos professores são:

  • condições inadequadas de trabalho;
  • pouca autonomia para ministrar os conteúdos em sala;
  • violência escolar;
  • indisciplina dos alunos;
  • falta de suporte da gestão e colaboração da família dos alunos;
  • salas cheias;
  • efeitos do mundo globalizado;
  • sobrecarga burocrática;
  • falta de reconhecimento;
  • tarefas rotineiras sem sentido;
  • dificuldades nas relações interpessoais no ambiente profissional;
  • excesso de trabalho;
  • dificuldade na gestão de tempo para planejamento de aula;
  • passar o conteúdo em tempo hábil, bater as metas quantitativas, tentar adaptar os conteúdos para os alunos que não estão acompanhando ou não estão alfabetizados;
  • distância geográfica da escola à qual pertence;
  • baixa remuneração;
  • frustração com a realidade educacional e fenômenos emergentes ligados aos recursos tecnológicos.
estresse do professor

Muitas dessas causas se associam, gerando grande sofrimento. Já aconteceu de você, professor:

Sentir falta de energia, uma solidão intensa, uma sensação de injustiça, de impotência, uma irritação, os nervos “à flor da pele”, tanto no ambiente de trabalho e até mesmo fora dele?

Experimentar a incapacidade de conseguir prestar ajuda a um aluno que você sabe que está precisando, seja pedagógica ou de sua atenção por estar em “frangalhos” com sua própria dor?

Querer fazer projetos inovadores e se frustrar com suas próprias expectativas, sentindo um sabor amargo de insatisfação e falta de apoio?

Mas, afinal, o que é a Síndrome Burnout?

A conhecida síndrome burnout, a partir da década de 1980, tornou-se um campo vasto de pesquisa, incorporado à área de estudo sobre o estresse nas mais diversas profissões. É uma síndrome que afeta principalmente os trabalhadores encarregados de cuidar, ao reduzir a defesa imunológica física e/ou psíquica do indivíduo.

O termo burnout, segundo Christina Maslach, psicóloga social norte-americana, se caracteriza pela perda de vontade no envolvimento com os demais, uma espécie de defasagem afetiva nas relações com as outras pessoas, com falta de energia, atenção, concentração, irritação, tristeza, insatisfação em relação à profissão e com os aspectos fundamentais nos cuidados da saúde que vão levando ao esgotar-se a si próprio.

A Síndrome Burnout é caracterizada por três aspectos básicos, que podem ser entendidos da seguinte maneira para os professores:

burnout no professor

Exaustão Emocional

É decorrente da intensa carga emocional que todo o universo escolar demanda, desde lidar com seres humanos (relação professor/aluno, pais, funcionários, gestores) até as questões ligadas à prática pedagógica em torno do ensino e dos compromissos burocráticos da profissão e todas as causas envolvidas já citadas. As relações com o trabalho e com a vida ficam insatisfatórias e pessimistas.

A mente é uma entidade não material composta de processamento de informações altamente avançadas e impossíveis de enumerar, que variam de simples a muito evoluídas.

Despersonalização

Caracteriza-se por contatos interpessoais carregados de uma visão e de atitudes negativas frequentemente sentido como vontade de se isolar ou sair daquele ambiente. O profissional, ao assumir tais atitudes, deixa de se importar com o entorno, fica indiferente, sem saber o que fazer, pensar, num estado de confusão, perdendo assim a capacidade de se entusiasmar, inclusive vendo a si e o entorno de forma depreciativa. Sem exagero, o professor começa a sentir uma perda de sua identidade profissional e até pessoal.

Redução da realização pessoal e profissional

Se nada for feito para sanar todo esse estresse que já está na mente e no corpo, alterando a forma como o professor se enxerga dentro da sua realidade profissional, podemos dizer que a luz vermelha gira como uma sirene barulhenta e o abismo da figura do professor como referência de transmissão de conhecimento e da formação de cidadãos pensantes e atuantes no mundo na vida estará na berlinda, porque o adoecimento poderá afastar o professor da sua missão profissional.

O número de afastamentos médicos por questões de ordem emocional e mental vem crescendo vertiginosamente desde 1980, e quem será que está realmente preocupado com isso?

Estatísticas

Uma pesquisa realizada pela Associação Nova Escola com mais de cinco mil educadores, entre os meses de junho e julho de 2018, reuniu mais informações sobre o problema e identificou que 66% das professoras e professores já precisaram se afastar do trabalho por questões de saúde, na maioria problemas de ordem emocional e mental. O levantamento também mostrou que 87% dos participantes acreditam que seu problema é ocasionado ou intensificado pelo trabalho.

As faltas ocorridas e o afastamento do trabalho têm sido mecanismos de defesa encontrados pelo professor para aliviar a tensão causada pelo exercício da profissão.

E você, professor, já se sentiu encurralado em uma situação de trabalho que não pôde suportar, mas da qual também não podia desistir?

Já sentiu vontade de sumir do ambiente escolar ou já ficou aflito e angustiado ao ter que se levantar da cama e ir à escola?

A falta de sentido e frases como “não sei o que fazer”, “não estou fazendo um bom trabalho”, “estou presa/o num vácuo”, “fracassei” resumem um impasse da docência e ativa, inconscientemente, uma uma espécie de defesa que podemos chamar de “retirada psicológica”.

Se o caminho para formar melhores cidadãos atuantes e felizes no mundo é por meio da docência, como pode muitos professores se sentir empurrados para fora da escola pelo impacto direto na própria saúde? Quanto tempo mais a sociedade vai demorar para ver que, se a saúde do professor continuar ameaçada, é a própria educação que está comprometida?

Se pensarmos que a falta de professores nas escolas pode se tornar um problema grave no Brasil no futuro próximo – seja por adoecimento, seja por desestímulo pela carreira –, o prognóstico é negativo, em médio e longo prazo. A quebra de expectativas do professor com relação à profissão pode ser vista sob o prisma da perda da identidade docente como um trabalhador da educação, cuja categoria profissional sempre gozou de grande prestígio e notoriedade para a sociedade no que diz respeito a provocar a curiosidade do aprendiz na aquisição de conhecimento, ao melhorar desempenho, resultados e desenvolvimento pessoal.

Síndrome Burnout e os professores no Brasil

saúde do professor

No Brasil, a mídia quase que diariamente chama a atenção às múltiplas dificuldades enfrentadas pelos professores. Esse cenário atual desses profissionais brasileiros mostra uma realidade que vai do sentimento de derrotismo ao adoecimento físico e mental que leva, por vezes, à incapacidade laboral e à loucura. A gravidade da situação é tamanha que tem levado à “desistência na escola e da escola”. Aqui está algo muito sintomático que precisa ser visto: a perda da identidade profissional.

Outra situação tão importante de ser vista é o que acontece no retorno ao trabalho com a opção de readaptados. Diversos professores afastados das salas de aula não se percebem, de fato, voltando ao trabalho quando retornam. Isso porque não conseguem enxergar sua identidade profissional atrelada às funções que geralmente lhes são atribuídas na condição de readaptados. Um processo potencialmente frustrante, principalmente para os que se afastaram em decorrência de transtornos emocionais, podendo sofrer preconceitos, o que torna seu retorno um calvário, piorando ainda mais sua autoestima.

Você, professor, que retornou após licença de saúde e foi readaptado, já viveu essa situação de parecer carregar na testa um letreiro luminoso, escrito “derrotado” e ver toda a sua trajetória profissional na lata do lixo?

Temos, portanto, diante de nós uma desafiadora constatação. A qualidade da saúde e das condições de trabalho dos professores chegou em um nível de ambiguidade que não se pode mais tolerar.

Soluções para ajudar o professor

O impasse só pode ser solucionado com uma mudança de olhar. Foquemos os esforços em identificar possibilidades de intervenção e formar uma rede de apoio de solidariedade para a saúde dos professores. 

Para isso, é preciso verdadeiramente olhar para o professor não mais como vitimizado, reproduzindo a retórica que há anos vem sendo programada em nosso cérebro, ou seja, de que o professor está derrotado, fracassado e perdeu seu território de trabalho. Aqui está a grande chave.

É fato mostrado por inúmeras pesquisas que essa categoria profissional vem perdendo saúde por não mais reconhecer a grandeza da sua missão, perdendo o chão sob seus pés e caindo no abismo que se descortina à sua frente. Somente quando se torna inteiro você pode começar a fazer o mundo todo “fazer sentido” ao seu redor.

Professor brasileiro

Como você, professor, pode se sentir inteiro novamente? Podemos dizer que muitos professores(as) a “duras penas” tiveram que  buscar e encontrar caminhos de olhar-se com mais gentileza e amor e não mais com sentimentos de fracasso e impotência, se instrumentalizando e se munindo de novos repertórios cognitivos, emocionais e comportamentais, a fim de resgatar condições psicológicas para retornar e se manter saudável. Recuperar a sensação de inteireza perdida no estresse da existência cotidiana e ocupacional é fundamental para sair da posição do derrotismo e vitimismo.

É justamente fortalecendo corpo-mente e se responsabilizando pela sua própria saúde, que os educadores, identificando e declarando os incômodos em um ambiente de ajuda apropriado, consigam restabelecer a qualidade de vida e resgatar sua identidade profissional e sua dignidade humana. Todos os cuidadores precisam ser cuidados. Os professores necessitam de espaços de escuta sensível e acolhimento como meio de prevenção e alívio às pressões e angústias acumuladas.

A terapia Comunitária

O sonho maior é de que todos os docentes possam encontrar um refúgio que seja seguro para cuidar-se, para falar das suas histórias, com as alegrias e desafios, com as esperanças e lutas.

Você, professor, consegue vislumbrar a existência desse lugar de cuidados que é tão sonhado como processo de transformação individual e coletiva? Lembre-se de que tudo começa em você mesmo e se espalha através do que existe em seu coração. Na atualidade, se cuidar não é luxo, é saúde.

Com uma missão dessa ser um peso morto é entristecedor, afinal, a figura do professor como referência de transmissão de conhecimento e da formação de cidadãos pensantes e atuantes no mundo é compreender, como cita o escritor Rubens Alves, que “precisamos de uma educação ligada à vida, que é por isso que a gente aprende, para poder viver melhor”.

Falarei em outros artigos sobre esse refúgio seguro. Sim, esse lugar existe: self care terapia comunitária integrativa e self care – imersão de autocuidado. Ambos podem te ajudar a entrar em contato com seu núcleo de saúde, que é estar no fluxo da vida, porque o calvário, você, professor, sabe e precisa lembrar que é o fluxo da morte, o massacre da educação.

Parafraseando Milton Nascimento na canção, Coração Civil – “Assim dizendo a minha utopia eu vou levando a vida, eu vou viver bem melhor, doido pra ver o meu sonho teimoso, um dia se realizar”.

Andréia Manzoli – Psicóloga, Coach e Terapeuta Comunitária

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